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Além dos marcos de desenvolvimento: O autismo em bebês sob a lente do afeto

Quando pensamos no crescimento de um bebê com menos de 2 anos, é quase automático corrermos para os manuais e tabelas: “com quantos meses sentou?”, “com quanto tempo andou?”. Mas o desenvolvimento de uma criança não acontece no vácuo, ele nasce da relação. Para percebermos os primeiros sinais do Autismo (TEA), precisamos olhar além desses números e focar na qualidade da troca afetiva no dia a dia. É o brilho no olho, o sorriso compartilhado e a forma como o bebê nos convida para o mundo dele que realmente importam.

Às vezes, um sinal de alerta precoce se esconde no oposto do que imaginamos: bebês que são “fáceis demais”, que quase não choram ou exigem atenção, ou, no outro extremo, aqueles que são muito difíceis de consolar. O ponto chave aqui é o interesse pelo outro. Mais do que notar se o bebê sorri, precisamos observar se esse sorriso é uma resposta calorosa à sua voz e à sua presença, ou se ele prefere passar longos períodos focado fixamente em objetos, ignorando as pessoas ao redor.

Outro indicativo valioso é a falta daquela brincadeira de “pingue-pongue” na comunicação, que no modelo DIR/Floortime chamamos de abrir e fechar círculos. Sabe quando você faz um som, o bebê responde, você faz uma cosquinha e ele ri? Isso é reciprocidade. Por volta do primeiro ano de vida, se o bebê não atende quando chamado pelo nome ou não pratica a atenção compartilhada, que é o ato de apontar para um brinquedo e olhar para você para dizer “olha que legal isso!”, acende-se um farol amarelo.

Para a musicoterapia, nós nos comunicamos cantando muito antes de falarmos as primeiras palavras. Nossa primeira linguagem com o bebê é pura música: cheia de ritmo, pausas gostosas e tons expressivos. Um bebê no espectro pode não se sintonizar com esse “maternês” (aquela voz manhosa e musical que os pais usam naturalmente). Ele pode parecer indiferente à música da sua voz, preferindo focar em barulhos mecânicos e repetitivos, e o seu próprio balbucio pode soar mais retilíneo, sem aquelas subidas e descidas de tom de quem está tentando conversar.

Identificar esses detalhes cedo não serve para rotular o seu bebê, mas para agir a tempo, aproveitando que o cérebro nessa fase é como uma esponja moldada pelo afeto. Se a criança encontra barreiras para se conectar, nós não esperamos um diagnóstico fechado para começar a agir. Nós descemos para o chão com ela. Usamos a música, o tom de voz e o brincar sensível para respeitar o tempo dela e, com muita alegria, trazê-la de volta para o mundo das interações humanas.