Nos outros artigos eu já mencionei os círculos de comunicação, aquela troca de sinais entre mim e a criança. Mas esse conceito é tão central no Floortime que ele merece um espaço só dele, porque tem uma parte que costuma passar despercebida: não é abrir o círculo que ensina mais, é fechá-lo.
O que é abrir, o que é fechar: Abrir um círculo é simples: a criança olha para um objeto, aponta, faz um som, estica o braço. Qualquer sinal que ela emite na minha direção abre um círculo. Fechar é o que vem depois: eu respondo a esse sinal, e ela responde à minha resposta. É só nesse segundo momento, quando ela processa o que eu fiz e devolve algo, que o círculo realmente se completa. E é exatamente aí que a criança aprende algo enorme: que o sinal dela mudou alguma coisa no mundo, e que ela pode agir sobre o que voltou pra ela. Se eu respondo mas sigo em frente sem esperar essa devolutiva, ou se eu “ajudo demais” e resolvo tudo antes dela responder, eu abri o círculo, mas nunca deixei ela fechar. E é o fechamento, não a abertura, que constrói o senso de “eu posso influenciar o que acontece ao meu redor”.
Um círculo sozinho, uma corrente de círculos: Greenspan contava o caso de um menino que balançava os braços; o pai balançou de volta; o menino balançou de novo, de um jeito diferente; o pai respondeu de novo, e assim foram, dezenas de vezes, sobre o mesmo tema. Um único círculo, a criança estica a mão, eu entrego o brinquedo, já é valioso. Mas o que realmente marca desenvolvimento é a criança conseguir sustentar uma corrente longa de círculos seguidos, no mesmo fio de atenção compartilhada. É esse encadeamento que, mais adiante, vira a base para resolver problemas em conjunto, negociar qual brinquedo pegar, descobrir juntos como abrir uma caixa. Quanto mais longa a corrente sem se quebrar, mais essa capacidade está amadurecendo.
Os erros que fecham a porta sem querer: Alguns hábitos muito comuns, e muito bem-intencionados, acabam fechando circuitos que a gente queria abrir:
- Perguntas de teste em sequência (“que cor é essa? e essa?”) colocam a criança no papel de quem vai ser avaliada, não de quem está em uma conversa. Sem espaço para errar ou construir, não sobra muito circuito para abrir.
- Responder pela criança antes que ela tenha tempo de reagir interrompe o círculo antes mesmo dele começar a se fechar.
- Narrar sem parar (“agora você pegou o carrinho, agora ele anda, agora…”) é ótimo em doses pequenas, mas se o adulto preenche todo o silêncio, não sobra espaço, nem motivo, para a criança usar a vez dela.
- Redirecionar para a própria agenda, trocar de brincadeira porque “seria melhor” ela fazer outra coisa, descarta o círculo que ela tinha acabado de abrir.
- Falar rápido demais não dá tempo de processamento suficiente para muitas crianças responderem antes da janela se fechar.
Nenhum desses hábitos é motivo pra culpa, eles vêm de um lugar de cuidado. A diferença está só em desacelerar e abrir espaço pra resposta chegar.
Como abrir mais círculos, mesmo sem palavras: Com crianças ainda não-verbais ou com comunicação bem inicial, alguns recursos ajudam bastante:
- Espera expectante: uma pausa real, com uma expressão de “quem sabe o que vem agora?”, dando segundos de verdade antes de ajudar.
- Afeto exagerado: “eu tô chegandooo…”, “nossa, e agora, o que será que acontece?”, a emoção ampliada funciona como um convite, mesmo sem palavra nenhuma.
- Brincar de “boba”: colocar o sapato na própria cabeça, entregar o objeto errado, convida a criança a me corrigir, e corrigir também é um círculo.
- Oferecer escolhas em vez de perguntas abertas: duas opções concretas nas mãos são muito mais fáceis de responder do que “o que você quer fazer?”.
- Entrar na brincadeira dela, em vez de redirecionar: o próximo círculo sempre nasce de onde ela já está, não de onde eu acho que ela deveria estar.
Cada círculo fechado é uma pequena prova, para a criança, de que ela tem voz nessa relação. E são essas pequenas provas, uma atrás da outra, que constroem a confiança de se comunicar.
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Este artigo faz parte do guia completo: DIR/Floortime: O Que É e Como Funciona.
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